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Entrevista: Roberto Guedes Por: André Valle 28/03/2008

Apaixonado por quadrinhos, Roberto Guedes produziu diversas publicações independentes, sendo algumas de artigos sobre HQs, como o Gibilândia, e outras, com histórias de seus personagens Meteoro, Os Protetores e Guepardo. A partir de 2002, passou a atuar como editor, tradutor, ensaísta e entrevistador, para diversas editoras, como Opera Graphica, Escala, Mythos e Panini. Conquistou o Troféu Ângelo Agostini de Melhor Editor por dois anos seguidos, e o Troféu Jayme Cortez, pelo incentivo ao quadrinho nacional. Em 2004, Guedes lançou seu primeiro livro teórico, Quando Surgem os Super-Heróis, uma análise minuciosa sobre a Era de Ouro e a Era de Prata, e no ano seguinte, A Saga dos Super-Heróis Brasileiros, trazendo diversos detalhes sobre os artistas e editoras que publicaram super-heróis nacionais. Recentemente, lançou pela HQM Editora seu terceiro e melhor livro, A Era de Bronze dos Super-Heróis, que aborda de maneira contundente a trajetória dos criadores, dos personagens e de todo o mercado editorial americano entre os anos de 1970 e 1985 – período, este, em que muitos elementos surgiram e que prosseguem até hoje, como as publicações de graphic novels, e de crossovers entre personagens de editoras diferentes. Bem, vamos à entrevista:
 Olá, Guedes! Qual parte desse livro exigiu uma pesquisa maior?
Oi, André! Acho que foi o 5º capítulo “Distribuição e Tendências”, que fala sobre o mercado americano de revistas... algo, até então, praticamente “alienígena” para o leitor brasileiro. Foi muito legal se aprofundar na gênese do Mercado Direto de revistas, lá atrás, nos primórdios dos quadrinhos underground; nas primeiras minisséries, material licenciado, graphic novels etc. Adorei falar das editoras mais obscuras como a Atlas/Seaborad, a Americomics e, principalmente, da Charlton. Sinceramente, é o capítulo que eu mais gosto no livro.
O que o motivou a escrever esse livro?
Hmm... foi como fazer uma viagem no tempo e poder rever – e reviver – sensações e experiências passadas. Minha motivação para escrever o livro partiu, obrigatoriamente, da necessidade de completar o panorama das “Eras Super-heróicas” iniciado por mim mesmo em Quando Surgem os Super-Heróis.
É verdade, e acho que esse terceiro trata de um assunto inédito em termos mundiais, não é?
Creio que sim. Em termos internacionais, há muitas publicações que abordam personagens e fases distintas dentro da Era de Bronze... mas não tenho conhecimento de ninguém que chegou a escrever um livro exclusivo dedicado ao tema, subdividindo em capítulos tudo que é parte integrante desse período, assim como eu fiz.
Pensando bem, de certa maneira seus três livros se completam, mesmo abordando fases e ambientes distintos, não é?
Há tempos notei que havia ótimas obras nacionais sobre quadrinhos, mas nenhuma delas tratava, única e exclusivamente, da importância e da influência exercida pelos super-heróis na cultura popular. Acho que meus livros, então, cumprem essa função. Se não de maneira definitiva – pois isso não existe –, ao menos, como um “pontapé inicial”, para que outros possam usar como base e trazer mais informações ao tema.
Você sabia que seus dois primeiros livros já são usados em salas de aula, e como base bibliográfica de várias teses acadêmicas e de mestrado?
Sim. E fico muito satisfeito com isso. É sinal de que estamos a trabalhar direito...
 Com certeza “A Era de Bronze dos Super-Heróis” seguirá o mesmo caminho....
É bem provável, André. Mas espero, principalmente, que as pessoas se divirtam e aprendam alguma coisa com a leitura. Eu me diverti à beça escrevendo sobre a Era de Bronze... acho que dá pra perceber e sentir isso em cada linha...
De acordo com seu livro, houve, nas décadas 70 e 80, principalmente pela Marvel, o lançamento de títulos de super-heroínas, como Miss Marvel, Mulher-Aranha e Mulher-Hulk. Era uma época em que seriados como “As Panteras” e “A Mulher-Biônica” faziam sucesso. Mas esses títulos duraram pouco tempo, apesar da boa qualidade. Eu mesmo gostava muito das histórias da Miss Marvel.
A Marvel tentava a qualquer custo emplacar uma personagem feminina pra concorrer com a Mulher-Maravilha, mas não conseguia. Enquanto a amazona da DC tinha uma tradição de longas décadas, as heroínas da Marvel não conseguiam fazer com que os seus leitores (geralmente do sexo masculino), se identificassem com as suas motivações. Em séries como “A Gata” até colocaram mulheres pra escrever, mas não adiantou. O fato, é que se queriam mesmo que essas séries vendessem, o marketing delas deveria ser voltado para o público feminino, e não tentar inserir as revistas no mesmo balaio dos outros heróis.
O público leitor daquela época era machista?
Olha, o que o pessoal queria mesmo era ver a mocinha bonita e indefesa ser salva pelo herói. Você sabe... super-herói sempre foi leitura de garotos. Roy Thomas lamentava, pois sabia que os garotos negros compravam gibis de heróis brancos, mas que os leitores brancos não compravam revistas de heróis negros, tampouco de heroínas.
Falando em heróis negros, algum deles chegou a ser considerado um sucesso comercial? Luke Cage, Pantera Negra, ou ainda o Raio Negro da DC...
Naquela época, não, embora o título de Luke Cage tenha durado vários anos – devido, principalmente, à união dele com o herói Marcial Punho de Ferro. Com o tempo, acredito que até mesmo os leitores negros desistiam da leitura desses gibis, mesmo porque eles encontravam mais identificação com seus ídolos da emergente música negra em fins dos anos 70.
É muito interessante a influência do desenhista John Romita dentro da Marvel, sendo mais reconhecido por seu trabalho com o Homem-Aranha. Seu livro revela que ele agia muito na elaboração de tramas e no visual de heróis que surgiram na Era de Bronze (como Wolverine e Justiceiro), mas me parece que ele acabou tendo menos destaque que Jack Kirby, por exemplo. Por quê?
A verdade, é que na Marvel, ninguém teve mais destaque que Stan Lee e Jack Kirby – por motivos óbvios, não é? Contudo, o Romitão realmente merecia um maior reconhecimento por parte do fandom e da imprensa especializada por tudo o que ele fez pela editora. E isso só começou a acontecer a partir de meados dos anos 90. Aqui no Brasil, pelo menos, sempre fiz questão de mostrar o quanto John Romita foi importante. Foi por causa dele que o Homem-Aranha transformou-se no super-herói mais popular do mundo! E isso, meu chapa, não é pouca coisa...
 Entre os títulos licenciados (como Kiss, Esquadrão Atari e Star Wars), qual é o que teve maior êxito durante a Era de Bronze?
O Kiss teve algumas edições especiais pela Marvel que se esgotaram rapidamente, e hoje são artigos raros de colecionador. Entretanto, se formos analisar em termos de longevidade, Star Wars ganha disparado.
No final do livro, você apresenta uma análise de como ficaram os super-heróis após o término da Era de Bronze. Como leitor, você acompanha as atuais histórias de super-heróis da Marvel e da DC? Tem algum título que te agrada?
Gosto do Capitão América do Ed Brubaker.
Você entrevistou quatro ex-editores-chefes da Marvel. Isso é um fato inédito em se tratando de Brasil. Como foi trocar palavras com Stan Lee? Quem foi o mais receptivo?
Todos foram muito gentis. O Roy Thomas é o que eu mantenho contato há mais tempo... e o Tom de Falco é um cara muito gente fina! Já o Stan... putz! Ele até me enviou uma mensagem de Feliz Natal e Ano Novo. Ah, e o Marv Wolfman deve ter estranhado muito eu fazer uma entrevista com ele só falando do Nova (risos).
Após o lançamento de “A Era de Bronze dos Super-Heróis”, você pretende lançar mais algum livro teórico? Se sim, sobre qual tema?
Há dois projetos em andamento. Inclusive, um deles é teórico, feito em parceria com um amigo. Mas não posso adiantar nada no momento.
Com sua experiência como editor, como você vê o atual mercado de quadrinhos nacionais?
Há mercado? Acho que as duas últimas investidas significativas com quadrinhos brasileiros ocorreram com o projeto “Graphic Talents” da Escala, e com os álbuns da própria Opera Graphica, onde tivemos a oportunidade de publicar muitos autores e obras diferentes. Há o circuito alternativo, com um pessoal de talento despontando, mas você sabe como é... sem dinheiro, não há amor que sustente uma revista em quadrinhos por muito tempo.
Exceto pelos personagens de Mauricio de Sousa, não há mais nenhum um gibi mensal de personagens brasileiros nas bancas. As demais publicações nacionais de quadrinhos são destinadas para as livrarias, como os álbuns de Lourenço Mutarelli e dos irmãos Bá e Moon. Qual as razões disso, na sua opinião?
Havia uma esperança em material licenciado, como os gibizinhos do Sítio do Picapau Amarelo e Cocoricó – que você, inclusive, era um dos mais competentes colaboradores –, mas foram descartados sumariamente em prol de versões literárias para livrarias. Infelizmente, a tendência é a migração gradativa dos quadrinhos – enquanto formato – para esses redutos, abandonando de vez as bancas. E as editoras não têm culpa disso. Pelo menos, não totalmente. Os fatores e as razões são inúmeros: internet, baixo nível de escolaridade, poder aquisitivo... enfim, já falamos tanto sobre isso (...) seria mais interessante alguém iniciar um debate pra se encontrar soluções que impedissem que os quadrinhos sumissem de vez das bancas, e não impedi-los de chegar às livrarias. Quer saber?... é bom que ainda consigam chegar a algum lugar...
 Para um suposto título mensal de quadrinhos nacionais, você acha que o público brasileiro prefere ver diversas histórias de personagens e de autores diferentes ou de um único personagem?
Independente de o título ser solo, ou de ser mix, tenho a convicção de que o leitor gosta mais é de histórias com personagens fixos. As pessoas gostam da possibilidade de acompanhar o desenvolvimento de um personagem, número a número.
Aliás, você tem planos para publicar algum de seus personagens? Se sim, será num álbum ou numa revista distribuída em bancas?
Bem, todo mundo sabe que o Meteoro está com a HQM Editora, que anunciou a intenção de lança-lo em uma revista mix com outras apresentações. Pelas últimas informações que me passaram, a publicação, que promete e muito em termos de qualidade, deverá, enfim, sair este ano. Essa rapaziada da HQM é muito séria e tudo que fazem é com esmero e capricho. Esperem pelo melhor!
Você ficou surpreso com o sucesso do abaixo-assinado promovido pela lista Gibifans pra que lançassem logo o Meteoro?
Isso é coisa do Paulo Ricardo Montenegro, um dos maiores entusiastas de quadrinhos do Brasil. Sim... fiquei muito contente com sua iniciativa e com todos aqueles votos. Quem sabe não são atos de extrema generosidade como esses que andam faltando em nosso meio editorial, não é? Um meio tão fascinante... tão cheio de possibilidades... mas por vezes, tão afundado na mesquinharia... e no lamaçal de sentimentos menos nobres...
É isso aí, Guedes. Pra encerrar, dá pra dizer “aquilo”?...
Tá falado (risos)! 
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